Coleções da gastronomia: os objetos que guardam histórias da mesa

Durante algum tempo, a ideia dominante parecia simples. Viver com menos. Menos objetos pela casa, menos acúmulo, menos consumo. O minimalismo ganhou força nos anos 2010 e passou a orientar desde a organização dos armários até o modo como as pessoas escolhiam o que comprar.

Mas, aos poucos, um movimento silencioso começou a aparecer. Em meio a uma vida cada vez mais digital, com fotos, músicas, filmes e memórias guardadas em nuvens e dispositivos, muita gente voltou a dar valor justamente ao que ocupa espaço físico. Objetos pequenos, muitas vezes simples, mas capazes de guardar histórias.

Na gastronomia, isso aparece com frequência. Quem gosta de comida e bebida quase sempre acaba colecionando alguma coisa. Às vezes sem perceber. Pode ser a rolha de um vinho aberto em uma noite especial, o prato de um restaurante que marcou uma viagem, a caneca de uma cafeteria descoberta por acaso ou um ímã de geladeira trazido de férias.

Com o tempo, esses objetos passam a formar pequenas coleções. Não necessariamente organizadas como as de um colecionador tradicional, mas espalhadas pela casa, em prateleiras, estantes ou na porta da geladeira.

São lembranças de experiências vividas à mesa.

Uma parede de memórias

Em algumas casas, a gastronomia também ocupa as paredes. É o meu caso, da jornalista Luciana Torreão, criadora do Verbo Comer, que divide com a irmã uma coleção de pratos do projeto Boa Lembrança. São dezenas de peças reunidas ao longo de anos de viagens e visitas a restaurantes. Parte delas já está exposta em uma parede da casa. Outras ainda aguardam espaço para formar um novo painel.

Luciana Torreão possui um mural de pratos da Boa Lembrança na parede da sala.

Cada prato marca uma visita a um restaurante participante do projeto, que reúne estabelecimentos de diferentes regiões do país. Ao pedir o prato do festival, o cliente leva para casa uma peça exclusiva de cerâmica. Com o tempo, essas peças acabam formando uma espécie de mapa afetivo de restaurantes visitados.

A coleção não para por aí. As irmãs também guardam rolhas de vinho. São centenas delas, reunidas ao longo dos anos. Cada uma lembra um jantar, uma celebração, um encontro com amigos ou uma visita a algum restaurante especial.

Na cozinha, outra coleção chama atenção. A porta da geladeira funciona como um pequeno mural de lembranças, coberto por ímãs de viagem. A maior parte veio das viagens da mãe das duas, que costumava trazer souvenires de diferentes cidades. Depois vieram também os presentes de amigos que viajavam e voltavam com novos ímãs na mala.

Aos poucos, a geladeira foi se transformando em um painel de memórias.

Uma volta ao mundo em garrafas de cerveja

Quando duas paixões se encontram, às vezes nasce uma coleção. No caso de Nélia Costa, foram as viagens e a cerveja.

Hoje, as prateleiras da sala guardam garrafas vindas de diferentes partes do mundo. Cada uma tem um formato, uma cor ou um rótulo diferente. E todas trazem uma história.

“A brincadeira começou quando uma amiga trouxe uma cerveja para mim de uma viagem ao exterior. Depois virou costume. Quando eu viajo ou quando amigos e amigas viajam, sempre aparece na mala uma ou duas garrafas para a coleção”, conta.

As garrafas foram sendo reunidas ao longo dos anos. Todas abertas, degustadas e depois guardadas. Sim, todas foram bebidas. A coleção, claro, é de garrafas vazias.

Tampinhas que contam histórias

A coleção de Daniel Coutelo, conhecido entre os colegas como o Ogro do Verbo, nasceu da curiosidade. Curiosidade por novos sabores, diferentes brassagens e pelas possibilidades de harmonização da cerveja.

“Hoje mais de 130 tampinhas formam um quadro de vidro na parede. Cada uma representa uma cerveja provada e guardada como lembrança. Há rótulos clássicos e também alguns menos comuns, vindos de lugares distantes, como Tailândia e países africanos. Pode parecer uma coleção pequena, mas cada peça guarda uma história”, comenta Daniel

Ali, cada tampinha lembra um sabor descoberto e um lugar do mundo conhecido, ainda que por meio de um copo.

Objetos que guardam histórias

Coleções gastronômicas raramente começam com um plano. Elas surgem aos poucos. Uma rolha guardada aqui, um prato trazido de viagem ali, uma garrafa que parecia bonita demais para ir para o lixo.

Quando se percebe, existe ali uma narrativa inteira. Porque comida também cria memória. E, às vezes, essas memórias acabam guardadas em forma de objetos. Rolhas, pratos, garrafas, tampinhas, canecas, copinhos ou ímãs de geladeira. Cada coleção conta uma história diferente. No fundo, muitas casas acabam se transformando em pequenos museus da vida à mesa.