Além do bacalhau: a arte de harmonizar o almoço de Páscoa

Vinhos para o almoço de Páscoa: como harmonizar bacalhau, peixe, pernil e sobremesas

A Páscoa na mesa brasileira é um mosaico de afetos. Entre as lascas de bacalhau que se soltam ao toque do garfo e as receitas de família que resistem ao tempo, surge o desafio: como escolher o vinho que não apenas acompanhe, mas que brilhe junto ao prato? Harmonizar é, antes de tudo, buscar o equilíbrio entre a acidez, o corpo e a persistência aromática.

Para Fabiano Cunha, diretor da Wine Concept Brasil, o segredo está em entender a estrutura de cada receita. “É um momento de celebração. Acertar no rótulo é a moldura que torna o banquete inesquecível”, pontua o especialista.

Para começar, a clássica salada de bacalhau — prato que joga com a salinidade do peixe e a untuosidade do azeite. Aqui, a regra de ouro é o frescor.

A aposta: um espumante elaborado pelo método tradicional (Champenoise).

No paladar: A boa acidez e as notas de brioche e pão tostado limpam as papilas e preparam o terreno para os sabores mais intensos que virão.

O protagonista: o peixe e suas texturas

O bacalhau aceita diversos caminhos, dependendo da sua cocção:

Lombo assado com legumes: Pede um branco de perfil solar, com notas de frutas tropicais e acidez vibrante. O vinho deve ter “nervo” para cortar a suculência do peixe.

Peixe ao molho de coco com camarões: Aqui, o cenário muda. A cremosidade do leite de coco exige um branco de maior corpo, preferencialmente com uma leve passagem por madeira. A estrutura do vinho sustenta a intensidade dos frutos do mar sem sumir diante do molho.

O lado B: a carne de cordeiro ou porco
Para quem subverte a tradição marinha, o pernil assado é o rei da mesa.

O rótulo: Um tinto estruturado, de taninos elegantes (pense em um Merlot mais evoluído ou um Syrah).

A lógica: O vinho precisa de musculatura para acompanhar a fibra da carne e o sabor marcante do assado, sem atropelar o paladar.

O gran finale: rabanadas e chocolate
O encerramento pede vinhos que dialoguem com o açúcar, sem serem enjoativos.

Rabanadas: Encontram seu par ideal em vinhos de Colheita Tardia. O mel e o damasco característicos desses rótulos abraçam a canela e o caramelo do doce.

Mousse de chocolate: Para aliviar a densidade do cacau, um espumante Moscatel ou doce aromático traz o frescor necessário e notas florais que elevam a sobremesa a outro nível.

Ao final, como lembra Fabiano Cunha, as regras servem como guia, mas a celebração é o que dita o ritmo. A melhor harmonização é aquela que acontece entre o copo, o prato e quem senta ao nosso lado.